A GUERRA ESQUECIDA QUE SELOU A FRONTEIRA DO PARANÁ E SANTA CATARINA

ContestadoJorge Bernardi discursa na Câmara com a bandeira dos "Contestados" e faz um apelo à memoria dos que lutaram nesta guerra. (Foto: Andressa Katriny CMC)
 

O fim da Guerra do Contestado, envolvendo o Paraná e Santa Catarina, que deixou entre três e oito mil mortos, completa nesta quinta-feira (20) um século. É um dos eventos mais importantes da História do Paraná, só que pouco lembrado pelas autoridades. Na quarta-feira (19), com a bandeira dos sertanejos do Contestado em mãos, o vereador Jorge Bernardi (Rede) subiu à tribuna da Câmara para recordar este trágico episódio, que selou as atuais fronteiras entre o Paraná e Santa Catarina.

Estudioso do tema, Bernardi escreveu vários artigos científicos sobre este fato e também é o autor do livro "A Guerra do Contestado em quadrinhos" (2015- 160 paginas - Editora Urbi et Orbi) . Ele lembrou, em seu discurso, que "passados cem anos desta guerra esquecida, precisamos reverenciar os heróis e os mártires que participaram desta luta”. No discurso, o vereador criticou as autoridades de Curitiba e do Paraná, que não "dão o devido reconhecimento a este evento tão importante para a formação da nossa identidade cultura".

E prosseguiu: “Os verdadeiros heróis do Contestado, os sertanejos que lutaram por um direito assegurado pela posse da terra, continuam esquecidos na história. Nesses 100 anos, eu não vejo do Estado, nem da Prefeitura de Curitiba, nenhuma homenagem aos heróis que tombaram, tanto os que moravam na região em disputa (no Oeste do Paraná e no Norte de Santa Catarina), quanto os que sobreviveram ao conflito”, protestou Jorge Bernardi.

CÂMARA DE CURITIBA NA GUERRA

Agitando a bandeira Contestada, o vereador lembrou o envolvimento de autoridades de Curitiba e da própria Câmara na guerra. “Foi deste parlamento, que em 1912 partiu o coronel João Gualberto, então candidato a prefeito, para a sua última batalha", contou. “As informações da época dão conta de que ele comprou todas as cordas que havia na cidade, com as quais pretendia trazer amarrados os 'jagunços catarinenses', como se falava, pois imaginava que isso traria a ele grande popularidade”, explicou.

No dia 22 de outubro de 1912, na Batalha do Irani, começa oficialmente a guerra. No confronto, que envolveu 200 sertanejos e 70 militares, morreram 21 pessoas, incluindo os dois comandantes: o coronel João Gualberto Gomes de Sá, pelo lado da força pública, e o monge José Maria, que liderava o movimento dos sertanejos na região. Toda batalha não durou mais do que meia hora. “Uma das razões do conflito está na questão da terra, já que as elites paranaenses e catarinenses venderam as vastas extensões a grupos multinacionais que exploravam madeira, principalmente o pinheiro, que expulsaram os posseiros que viviam há séculos na área”, relatou.

O vereador, com base em seus estudos, explicou que até hoje a região do Contestado é uma das mais deprimidas economicamente. “Na emancipação do Paraná de São Paulo, as divisas entre Paraná e Santa Catarina não ficaram bem definidas. Esse problema dos limites interestaduais, a disputa pela terra, a madeira e a erva-mate, o movimento messiânico, o sentimento monárquico nas populações injustiçadas (em oposição à Proclamação da República), a postura nacionalista dos sertanejos e a luta inconsciente deles por direitos humanos são importantes para entender a guerra”, disse.

Bernardi destacou, ainda,  a importância de celebrar esses acontecimentos e entender os motivos que levaram ao conflito que mudou, para sempre, a história do Paraná. "Mas não o governo do Estado e nem a prefeitura de Curitiba promovendo qualquer evento ou campanha para marcar uma data tão importante", criticou.

Assista ao pronunciamento do vereador:

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